segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

'Não é de hoje que o BC faz algum tipo de controle do câmbio'

O mundo atravessa um momento de descrédito muito grande em relação à capacidade dos formuladores de política monetária para tratar riscos relacionados a preços e atividade econômica. O que se vê hoje no Brasil - inflação alta em meio a uma profunda recessão - é parte desse contexto geral, apesar de muito influenciado por questões domésticas, segundo a economista Mônica de Bolle, pesquisadora brasileira do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins.
"Mas há uma diferença muito clara entre os diversos BCs. O americano, por exemplo, sabe o que quer, sabe onde quer chegar. O brasileiro, não. E isso faz toda diferença", disse a economista em entrevista ao Valor.
Para Mônica, há uma "mão pesada" do Banco Central no câmbio, o que limitaria pressões sobre a inflação, uma vez que o potencial da política monetária está enfraquecido. Ainda segundo a economista, apesar de a função dos bancos públicos ser importante, não existe solução para o país que não passe por uma reavaliação do papel de BNDES, Caixa e Banco do Brasil na economia. Leia os principais trechos da entrevista.
Valor: O governo está adotando novamente uma âncora cambial?
Mônica de Bolle: Acho que é importante frisar que, de um lado, o movimento mais recente de queda do dólar no Brasil esteve muito relacionado ao exterior, especialmente após o banco central do Japão ter adotado taxas de juros negativas. Isso foi muito relevante. Mas acredito que não é de hoje que o Banco Central está fazendo algum tipo de controle do câmbio, algo voltado mais para controlar taxa do que exatamente suavizar oscilações mais bruscas. O BC tem feito continuamente as operações de swap cambial, mesmo em momentos de queda expressiva do dólar. A sensação que isso passa é que há uma mão pesada no câmbio, com o objetivo de evitar uma desancoragem ainda maior da inflação.
Valor: Isso é um sintoma de quais outros problemas do Brasil hoje?
Mônica: Você tem uma situação no Brasil em que não há âncora fiscal e agora uma política monetária comprometida, porque o BC se depara com uma recessão muito forte na economia que faz com que ele relute em subir os juros. E também tem a questão da dominância fiscal.
Valor: O país está em dominância fiscal?
Mônica: Acho que a dominância fiscal, ou pelo menos a dúvida se estamos ou não nela, influenciou a decisão do BC de não subir os juros. Mas ele jamais vai admitir isso. E sem a âncora fiscal, a inflação não encontra nenhum obstáculo. Isso só reforça a ideia de que a luta contra a inflação no Brasil não pode ser baseada em fórmulas contidas em livro-texto.

Valor: Você poderia discorrer mais sobre isso?
Mônica: Os padrões de estudo macroeconômico partem de um princípio básico de que em algum momento os preços, as variáveis, os ativos, vão convergir a um ponto de equilíbrio. Entre essas variáveis, podemos citar taxa natural de desemprego, taxa natural de juros e PIB potencial. Mas chegou-se a um ponto em que não conseguimos mais determinar esses níveis de equilíbrio com base nos princípios de antes. O que seria hoje o PIB potencial do Brasil? É uma pergunta a que poucos arriscam responder. E mesmo quando respondem é com grande incerteza. O mesmo vale para os Estados Unidos. A verdade é que ninguém sabe o que está acontecendo com esses parâmetros estruturais, e isso causa tamanha incerteza que você tem situações improváveis como expectativa de inflação em alta no Brasil mesmo com ambiente recessivo e inflação dormente nos Estados Unidos a despeito da recuperação da economia.
Valor: Como os formuladores de política monetária estão se saindo com essas situações?
Mônica: Existe um descrédito muito grande com a capacidade dos formuladores de lidar com essa nova configuração. Nenhum formulador de política monetária sabe responder às questões que se colocam. E, na tentativa de tentar achar respostas, acabam utilizando os mesmos parâmetros de antes, apesar da mudança pela qual a economia mundial passou. Isso gera uma desconfiança com esses formuladores que não é exclusiva do Brasil. Dessa forma, o que se tem é uma total falta de conexão entre os modelos utilizados e a realidade, já que você não sabe quais os parâmetros. Mas há uma diferença muito clara entre os diversos BCs. O americano, por exemplo, sabe o que quer, sabe onde quer chegar. O brasileiro, não. E isso faz toda diferença.
Valor: Qual a saída para a falta de chão na economia brasileira?
Mônica: Você tem que dar certezas. E essas certezas só se constroem com estratégias corretas de política econômica e agenda de reformas. Só é possível quebrar a dinâmica perversa da inflação no Brasil com um plano crível de ajuste fiscal, que inclua uma revisão mais profunda dos gastos do governo, algo que passe a sensação de que o governo está comprometido em arrumar o Orçamento. É claro que medidas drásticas de ajuste fiscal neste momento são contraproducentes, mas é preciso entender que esse ajuste profundo das contas é necessário porque trata-se de um problema estrutural e não cíclico. Um segundo ponto é uma reforma no sistema financeiro. Regredimos quase 20 anos em termos de funcionamento do sistema financeiro, que hoje é extremamente segmentado, com uma participação dos bancos públicos muito além da desejada. Isso impede que você crie mecanismos de financiamento de longo prazo de que a economia brasileira tanto precisa. Claro que o papel dos bancos públicos é importante, mas a questão é que o foco não pode ser apenas neles. Para mim, não existe solução para o Brasil que não passe por uma reavaliação do papel do BNDES, da Caixa e do Banco do Brasil na economia.
Valor: Como o estrangeiro tem observado o Brasil nesse contexto doméstico e também global?
Mônica: Trabalho mais com empresários aqui nos Estados Unidos e o que percebo é que aqueles que já têm operações no Brasil e tinham planos de ampliação frearam todos os investimentos. Mas é importante dizer que ninguém pensa em sair do Brasil, apesar do sentimento de perplexidade que existe, piorado agora por questões que extrapolam as análises centrais de economia, como a disseminação do vírus zika.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Deflação global pode ajudar Brasil

Quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu não aumentar a taxa de juros, há três semanas, não foi discutida em todas as dimensões a hipótese de uma crise financeira global. O que parecia estar no horizonte era uma deflação mundial. O que se ouve dentro do BC é que, com a piora dos últimos dias, pode haver tanto uma crise como uma onda deflacionária.
Uma deflação pode, em tese, ajudar os esforços do BC para cumprir a meta de inflação em 2017. Já uma crise financeira, a depender de sua evolução, pode atuar em sentido contrário, uma vez que provocaria desvalorização do real, com impacto nos preços internos.
O melhor cenário para o Brasil seria uma desinflação global que obrigasse as economias avançadas, sobretudo a americana, a adotarem políticas monetárias acomodatícias. Isso provavelmente derrubaria o dólar no mundo todo. Um dólar mais barato não está hoje nas contas de ninguém.

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Projeto 50 telhados instala 369 equipamentos fotovoltaicos

Ao longo de 2014 e 2015, o projeto 50 Telhados, uma iniciativa do Instituto Ideal para a instalação 50 sistemas fotovoltaicos de 2 kWp ou 100 kWp de potência total por cidade participante, registrou a instalação de 369 telhados fotovoltaicos no Brasil. O projeto, realizado em parceria com empresas instaladoras em 22 cidades do país, somou aproximadamente 2,38 MWp de potência instalada com geração estimada de 3,62 GWh por ano. Para o presidente do Instituto Ideal, Mauro Passos, ele gerou uma competição do bem, com resultados que comprovam a disseminação do uso da tecnologia fotovoltaica, urbana por definição. Segundo ele, o projeto foi uma ferramenta de alavancagem e de ajuda na tomada de decisão pelo consumidor.

Das 22 cidades participantes, nove alcançaram a meta estipulada, sendo que a maior parte delas o fez a partir da potência total instalada. Fortaleza (CE) e Rio de Janeiro (RJ) instalaram mais de 50 telhados efetivamente. Outros municípios que alcançaram a meta foram: Florianópolis (SC), Salvador (BA), Santa Cruz do Sul (RS), Campo Grande (MS), Curitiba (PR), Luis Eduardo Magalhães (BA) e Recife (PE). Os três estados com o maior número de telhados instalados foram Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, cada um deles alcançando mais de 60 instalações FV.  Em termos de potência instalada, além desses três estados, vale destacar a Bahia, que ficou em segundo lugar seguido do Ceará.

O Projeto 50 Telhados foi executado localmente nas cidades por 15 instaladores, sendo que as empresas com o maior número de cidades foram Solar Energy do Brasil, participando em cinco cidades de diferentes estados, e Enersol Brasil, em quatro cidades da Bahia.  O maior número de instalações FV em uma única cidade foi realizado pela Satrix, com 63 telhados solares em Fortaleza, seguido da Solar Energy do Brasil, com  37 em Campo Grande e 33 no Rio de Janeiro, Solled Eficiência Energética, com 28 em Santa Cruz do Sul e Araxá Energia Solar, com 22 em Florianópolis.

O Instituto Ideal lançou o projeto em dezembro de 2013 com o intuito de divulgar a geração distribuída a partir da fonte fotovoltaica, dando assim publicidade à Resolução 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica que cria o sistema de compensação. A meta de 50 telhados fotovoltaicos de 2 kWp ou 100 kWp de potência total instalada por cidade, poderia ser alcançada individualmente pela empresa instaladora ou em conjunto com outras, em um prazo de até dois anos. O projeto teve o apoio da Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável, por meio da GIZ.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

BNDES aprovou R$ 7,4 bilhões para projetos eólicos em 2015

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social encerrou o ano passado com R$ 7,42 bilhões em aprovações para 82 novos projetos eólicos, que somam 2.102 MW de potência instalada. O valor representa um aumento de 12,7% em relação ao montante aprovado no ano anterior, de R$ 6,58 bilhões. A quantidade de projetos aprovados mais que dobrou, passando de 40 para 82 — crescimento de 105%.
 
Desde 2003, o apoio do BNDES à geração eólica somou R$ 27,5 bilhões, para 264 projetos, com potência instalada total de 4.975 MW. Além de ampliar a participação da energia limpa na matriz energética brasileira, os projetos contribuem para reduzir as emissões e dinamizar a economia de seus entornos, gerando emprego e renda.
 
No fim de 2015, BNDES aprovou três novos financiamentos, no valor total de R$ 1,4 bilhão, para complexos eólicos em Pernambuco, Rio Grande do Sul e Ceará. Os três projetos terão 274 aerogeradores, com potência instalada total de 495,6 MW, e devem gerar 1,6 mil empregos diretos e cerca de 3,5 mil indiretos na fase de implantação. Quando estiverem prontos, os empreendimentos devem gerar 133 empregos diretos e 250 indiretos nos três estados. As três operações contemplam também subcréditos de R$ 7,1 milhões no âmbito da linha Investimentos Sociais de Empresas (ISE).
 
A maior operação, de R$ 658,3 milhões, apoia a implantação do Complexo Eólico de São Clemente (PE), da Casa dos Ventos, com capacidade instalada de 216,1 MW. Orçado em R$ 1,1 bilhão, o complexo reunirá oito parques, instalados nos municípios de Caetés, Capoeiras, Pedra e Venturosa, no Agreste Pernambucano. Está prevista a geração de 500 empregos diretos e mil indiretos na fase de construção. Quando entrar em funcionamento, o projeto deverá criar 30 vagas diretas e 50 indiretas. A operação, na modalidade project finance, que prevê o pagamento com os ganhos obtidos na venda da energia, inclui R$ 3,3 milhões para apoiar projetos sociais.
 
A segunda maior operação foi o apoio de R$ 496,5 milhões ao Complexo Eólico de Hermenegildo (RS), nos municípios gaúchos de Santa Vitória do Palmar e Chuí. Orçado em R$ 1,04 bilhão, o complexo — pertencente à Eletrosul e Renobrax — tem capacidade de 180,8 MW, distribuída por 12 parques eólicos. O complexo entrou em operação comercial em novembro de 2015. Em sua construção, foram criados 700 empregos diretos e 1,2 mil indiretos. Em operação são 70 diretos e 100 indiretos. A operação contempla R$ 2,47 milhões para projetos sociais nas áreas de educação, saneamento e turismo sustentável nos dois municípios. Do total financiado pelo BNDES, R$ 346,5 milhões serão desembolsados diretamente pelo banco e os R$ 150 milhões restantes serão repassados pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul.
 
Para o Complexo Eólico de Aracati (CE), do Grupo Alupar, foram aprovados R$ 261,3 milhões. Orçado em R$ 483,15 milhões, o complexo, formado por cinco parques eólicos, terá potência instalada de 98,7 MW. Na construção devem ser criados cerca de 425 empregos diretos e 1,3 mil indiretos. Em operação serão 33 diretos e 100 indiretos. No âmbito da linha ISE, foi aprovado o apoio de R$ 1,3 milhão para projetos sociais.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Hillary e Cruz vencem em Iowa; prévias têm início mais disputado

O resultado das primeiras prévias partidárias para as eleições presidenciais americanas, em Iowa, mostrou que a definição dos candidatos pode se alongar até mais perto das convenções partidárias de junho, tanto no lado democrata quanto no republicano.

Entre os democratas, a prévia de Iowa foi a mais acirrada da história, com Hillary Clinton superando o senador Bernie Sanders por apenas 0,2% dos eleitores. Ela obteve 49,8% dos votos de democratas no Estado, contra 49,6% de Sanders.

A disputa foi tão apertada que, em alguns condados, os delegados democratas foram escolhidos por cara ou coroa, após empate entre os defensores de Hillary e os de Sanders. As regras do partido, em Iowa, permitem o uso da moeda, em caso de empate nos condados, para definir o vencedor e ela foi jogada para o alto em três ocasiões.

Entre os republicanos, o favorito nas pesquisas, o empresário Donald Trump, terminou em segundo lugar, com 24%, quase empatado com o terceiro, o senador Marco Rubio, com 23%. O vencedor foi o senador Ted Cruz, com 28%.

Para as segundas prévias, no Estado de New Hampshire, no próximo dia 9, Sanders é o favorito, com 55% da preferência entre os democratas locais, contra 37% de Hillary. E Trump desponta em primeiro na média das pesquisas no lado republicano, com 33% das intenções de voto locais, contra apenas 11,5% de Cruz. Ou seja, os vencedores em Iowa deverão enfrentar dificuldades em New Hampshire, o que pode embolar um pouco essa fase inicial da corrida presidencial.

"Do ponto de vista formal, é possível que, em junho, ainda não haja o candidato oficializado", afirmou Mauricio Moura, economista e pesquisador brasileiro da Universidade George Washington. "Mas, na prática, entre março e abril, já devemos ter um vencedor de cada lado", advertiu.

O tempo para a definição dos candidatos dos partidos vai depender dos resultados das próximas prévias, em especial na chamada Super-Terça, em que vários Estados farão prévias simultaneamente, em 1º de março.

Moura avalia que o fato de Hillary ter passado pelo teste em Iowa e a expectativa de ela ir bem na Super-Terça poderão alçá-la a candidata democrata antes de abril. "Mas, se Sanders quiser alongar a disputa, ele poderá fazê-lo."

O mesmo pode acontecer com Trump no lado republicano. Ele é visto como um "outsider" pelo "staff" do partido, mas, como financia a sua própria campanha e angariou forte apoio popular com um discurso contra o "establishment" político, pode levar a disputa até o fim.

Alguns observadores acreditam que o acirramento da disputa democrata pode até beneficiar Hillary por lhe dar um adversário interno contra quem deverá lutar e discutir propostas perante os eleitores. "Americanos não gostam de coroações. Nós não gostamos de alguém ser o vencedor quase certo", disse Simon Conway, jornalista da estação de rádio 1040 WHO, a principal de Des Moines, a capital de Iowa. Ele recordou que, em 2014, nas eleições para o Senado no Estado, os democratas tinham um candidato sem oponentes, e os republicanos entraram com seis na disputa. Ao fim, os eleitores não gostaram do democrata por achar que seria "como uma coroação".

Na corrida presidencial atual, há três pré-candidatos democratas, mas Martin O'Malley, ex-governador de Maryland, está muito atrás nas pesquisas, de modo que a polarização será entre Hillary e Sanders. Já entre os republicanos, há 12 pré-candidatos.

Democratas e republicanos estão forçando discursos mais radicais, tanto para a esquerda, no primeiro caso, quanto para a direita, no segundo. Cruz transformou a sua campanha em Iowa numa cruzada cristã de olho nas pesquisas que apontaram que seis entre cada dez pessoas do Estado são evangélicos praticantes. Ele divulgou fotos rezando com a família antes dos comícios, nos quais enfatizou a sua plataforma contrária ao aborto, e panfletos em que se concentrou unicamente na sua crença em Deus, deixando de lado outros temas, como política externa, imigração e a reforma no sistema de assistência à saúde feita pelo presidente Barack Obama, para a qual Cruz foi o líder da oposição no Congresso. Trump divulgou um anúncio no Estado mostrando a Bíblia que ganhou de sua mãe quando criança, e Rubio fez anúncios anti-aborto no Estado.

Do lado democrata, Sanders atraiu muitos eleitores jovens com propostas consideradas radicais nos Estados Unidos. O septuagenário senador obteve 84% dos votos entre os eleitores de 17 a 29 anos de Iowa, enquanto Hillary obteve apenas 14% dos votos nessa faixa etária. Sanders, de 74 anos, se diz socialista, promete uma revolução e quer tornar as universidades gratuitas no país. "As pessoas não devem ser punidas financeiramente porque querem ter uma educação decente", disse o senador. "Eu acredito que as universidades devem ser gratuitas. E como vamos pagar por isso? Vamos propor um imposto sobre a especulação em Wall Street", continuou.

Hillary está reagindo com discursos concentrados em questões econômicas e sociais, para atrair o eleitorado mais à esquerda de seu partido. "O assunto principal desta campanha deve ser a economia. E nós temos de lidar não apenas com a desigualdade econômica, mas com a desigualdade racial, de gênero e as que afetam todas as pessoas", completou.

A organização interna é outro fator que está pesando na campanha. Cruz visitou todos os 99 condados de Iowa, de modo a conseguir a vitória. Rubio focou-se nas cidades maiores do Estado e teve maioria entre aqueles que decidiram o voto na última hora. Já Trump venceu nos grotões do Estado, deixou de ir a um debate e alternou viagens em Iowa com idas a outros estados, o que pode ter fragilizado a sua votação. "O boicote de Trump ao debate talvez tenha me ajudado", disse Rubio.

Hillary mobilizou um exército de apoiadores em Iowa, que bateram em mais de cem mil portas pedindo para as pessoas votarem nela, nos últimos dias. Ela foi vista por 77% dos eleitores democratas locais como a mais capaz de derrotar os republicanos. "Nós temos que nos unir contra a visão republicana. Eles estão rejeitando o progresso que conseguimos", afirmou, referindo-se a programas sociais do governo Obama, como o novo sistema de assistência à saúde.


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Brasil persiste nos erros que levaram à recessão, diz Oxford Economics

O governo brasileiro persiste nos mesmos erros que levaram à perda do grau de investimento e à pior recessão em um século, diz a Oxford Economics. No relatório “Diagnóstico errado, receita errada”, divulgado nesta terça-feira, a consultoria critica o pacote de crédito de R$ 83 bilhões anunciado na semana passada pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.
“Outra rodada de subsídios aos bancos públicos fará pouco para estimular o crescimento, mas certamente causará mais danos às finanças públicas, algo que o Brasil não pode mais se dar ao luxo”, diz o texto, assinado por Marcos Casarin, chefe de pesquisa macroeconômica para a América Latina da Oxford. Ele lembra que o país teve em 2015 um déficit nominal, que inclui os gastos com juros, de 10,3% do PIB, só superado entre os principais emergentes pela Arábia Saudita, cujo rombo é causado pelo tombo dos preços do petróleo.
Para ele, a presidente Dilma Rousseff parece crescentemente inclinada a intervir mais na economia, lembrando que os dias da chamada nova matriz econômica (NME) podem não ter acabado. Segundo ele, a NME substituiu a “bem sucedida trindade de políticas” marcada por austeridade fiscal, regime de metas de inflação e câmbio flutuante, que vigorou a partir de 1994.
Segundo Casarin, o novo conjunto de políticas, adotado entre 2011 e 2014, consistiu no estímulo à demanda por crédito subsidiado e desonerações tributárias para setores tidos como estratégicos, combinado com intervenção nos mercados de câmbio e de juros. “Os resultados foram decepcionantes: o investimento privado entrou em colapso, a indústria encolheu e o déficit fiscal disparou”, resume Casarin.
Para esconder os custos fiscais dessas políticas, diz ele, o governo começou a usar os balanços dos bancos públicos para bancar os seus gastos e a atrasar o pagamento do Tesouro para essas instituições – as chamadas pedaladas fiscais. “O uso sistemático de contabilidade criativa deu à oposição a base legal para abrir procedimentos de impeachment contra Dilma no fim do ano passado”, aponta Casarin. Para ele, é preocupante quando um país sem dinheiro e com esse histórico anuncia mais estímulos fiscais.
O economista diz que o principal motivo para preocupação é que o funding para as medidas recém divulgadas vêm das mesmas instituições que foram usadas no deslize fiscal recente. Ele lembra que, no fim de dezembro, o Tesouro transferiu R$ 72 bilhões que devia para os bancos públicos e para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Agora, essas instituições usam o dinheiro para aumentar os empréstimos a juros subsidiados para o setor privado. “Para nós, isso não é nada mais do que outro truque contábil”, afirma Casarin.
“Nós achamos que tanto o diagnóstico quanto a receita estão errados. A economia não está em recessão por que os bancos não querem emprestar, mas porque as empresas não veem nenhum motivo para tomar empréstimos”, diz o relatório, acrescentando que, ainda que as medidas funcionem e os financiamentos aumentem, o Tesouro vai ter que cobrir os custos de equalizar os juros com os bancos públicos. Isso implica, para Casarin, “outro aumento para a já insustentável dívida pública”. Nesse cenário, “as autoridades parecem persistir nos mesmos erros que fizeram a economia perder o status de grau de investimento e experimentar a pior recessão em um século”.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Reação desproporcional

O pânico dos mercados no início de 2016 extrapolou a real gravidade de alguns de seus propulsores, como a desaceleração da China. Ainda assim, por mexer com a confiança de empresários, consumidores e investidores, essa turbulência, mesmo que injustificada, pode levar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) a pausar momentaneamente o ciclo de alta dos juros. Essa é a leitura de James Sweeney, economista-chefe global do Credit Suisse.
Em uma avaliação da atual conjuntura econômica mundial, Sweeney afirmou que a reação dos mercados sempre é exagerada e que a economia chinesa não está perto de um colapso. "Se o pânico alguma vez é justificado? Os mercados extrapolam os eventos recentes o tempo inteiro", disse ao Valor. O economista esteve no Brasil para participar de conferência de investimentos do Credit Suisse para a América Latina.
A opinião de Sweeney é que o governo chinês ainda tem muitos instrumentos que pode usar para suavizar a desaceleração da economia. Além disso, o novo patamar de crescimento da China - o Credit Suisse projeta expansão de 6,5% este ano - é muito mais sustentável e sadio no médio prazo.
A reação dos mercados, contudo, não é ignorável. Sweeney acredita que, embora o foco do Fed esteja no mercado de trabalho e nas perspectivas de inflação dos EUA, o país não está ileso à onda de aversão ao risco nos mercados financeiros globais e a contínua turbulência pode afetar o ritmo do aperto monetário nos Estados Unidos.
Valor: Este ano começou com grande turbulência nos mercados financeiros. A situação da China justifica esse movimento?
James Sweeney: O ano começou com as pessoas muito preocupadas com os preços das commodities mais baixos, as implicações para os mercados de crédito dessa mudança e o que está acontecendo na China. Acho que o entendimento de que a taxa de crescimento dos investimentos da China não pode se manter nos níveis que vimos antes de 2011 serviu de gatilho para essa grande mudança nos preços dos ativos.
Valor: Mas a reação dos mercados é proporcional ao tamanho dos problemas?
Sweeney: Quando você põe todos esses fatores juntos, você pode criar uma série de narrativas que são suficientes para deixar os mercados financeiros em pânico. Agora, se o pânico alguma vez é justificado? Essa é uma pergunta boba. Os mercados em geral extrapolam os eventos recentes e isso nunca é justificável. Eu acredito que há uma série de razões para o que está acontecendo agora. Mas se sua questão objetiva for se vimos uma deterioração repentina nas perspectivas econômicas e de crescimento dos lucros que justifique uma brusca deterioração nos preços dos ativos, a resposta é não.
Valor: A desaceleração da China deve ser controlada, portanto? As autoridades devem ser capazes de gerenciar a crise?
Sweeney: Não acho que seja provável eles perderem o controle da crise. Eles têm muitas medidas políticas que podem usar. Mas houve muita volatilidade no mercado e a China, como qualquer economia, está sujeita a períodos de aversão ao risco. Eu deixaria claro, contudo, que apesar de a desaceleração atual da China ser o principal propulsor das dificuldades do mercado neste começo de ano, o crescimento da China não parece estar em colapso. O que acontece é que eles estão desacelerando de taxas de crescimento insustentáveis para algo mais sustentável e isso criou uma série de riscos de ajustes de curto prazo. Mas essa não é uma economia que está subitamente se contraindo ou que tem, por exemplo, problemas significativos no mercado de trabalho.
Valor: Quais medidas políticas devem ser tomadas na China?
Sweeney: Podemos ver mais cortes de impostos como medidas de estímulo. E em termos de política monetária, há espaço para reduzir os compulsórios e cortar as taxas de juros. Ao mesmo tempo, a China está muito focada em reformas e não está tentando criar um grande estímulo do lado da demanda para crescer. Isso alimentaria muito a dívida e criaria problemas no futuro. Eles estão tentando encontrar o equilíbrio correto.
Valor: Como o Fed deve reagir a essa turbulência de mercado?
Sweeney: O Fed quer retirar lentamente as condições altamente acomodatícias, mas está sujeito à aversão ao risco e é sensível a eventos globais e aos mercados financeiros. Em um momento de pânico do mercado e com essas crescentes preocupações com o crescimento, o Fed provavelmente será sensível e irá pausar [o ciclo de aperto]. Recentemente mudamos nossa visão e agora esperamos uma pausa na reunião de março, de modo que a próxima alta de juros será em junho. Mas eu também não ficaria surpreso se eles subissem já em março ou abril se os mercados se estabilizarem e os dados da economia americana continuarem fortes. Acho que o Fed quer subir o juro, desde que o mercado de trabalho continue a se estabilizar e a inflação continue onde está. Portanto, nós esperamos três altas este ano, mesmo que não comecem até junho.
Valor: Como as economias emergentes, em especial o Brasil, devem reagir a esse contexto?
Sweeney: O Brasil é sensível às condições globais por sua vulnerabilidade à oscilação nos preços das commodities, mas como o comércio exterior do país é pequeno, isso proporciona certa compensação. A exposição do Brasil a exportações não é tão grande quanto a de outras economias. Em 2008 e até 2012 durante a recessão europeia houve grande desaceleração no crescimento global e o Brasil se deu razoavelmente bem. Acho que o motivo foi que os preços das commodities estavam altos.
Valor: Qual sua projeção para o crescimento global este ano?
Sweeney: Projetamos crescimento modestamente melhor este ano, de 2,7% em 2016, após crescimento de 2,5% em 2015. Esperamos que a fraqueza seja concentrada no primeiro semestre e haja uma melhora na segunda metade do ano.

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